Uma vida inacabada
Em quase um século de existência, vi o mundo transformar-se à minha volta. Chegou o asfalto, construíu-se a autoestrada, e os terrenos vizinhos foram-se enchendo de novos edifícios e casas. A minha irmã mais velha do outro lado da estrada, Casa Irma, transformou-se, ampliou-se e ganhou linhas contemporâneas. Chegaram novos hóspedes, tornou-se um centro de projetos e encontros, um lugar vivo de visões. Eu, pelo contrário, fiquei sempre inacabada. Nenhuma família quis construir a minha segunda metade. Nenhuma quis completar a minha silhueta. A simetria ficou um sonho. Ainda que a vida sob o meu telhado fosse apaixonada, com quatro gerações que se sucederam ligadas pelo amor à terra e à convivialidade. Outrora os meus terrenos chegavam até à curva da estrada cantonal e estavam cultivados com vinha. Havia árvores de fruto: pereiras e macieiras, e plantas medicinais; ainda hoje existe um velho alecrim. A embelezar o jardim, um imponente abeto vermelho do Jura, plantado em meados dos anos quarenta, e uma magnólia. Antigamente, na pequena construção ao meu lado, havia um lagar onde se fazia vinho e se destilava aguardente, enquanto sob o pátio se grelhava, cantava e festejava. Os descendentes partiam para a Suíça romanda e alemã, e depois regressavam. Tinham afeto por mim, e eu por eles. Mas eu ficava sempre inacabada. Até que…